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Post sem título - Maria Eugénia Coelho Beltran Pepe Lopes



"Há coisas que não queremos que aconteçam, mas temos de aceitar, coisas que não queremos saber, mas temos de ouvir e pessoas sem as quais não podemos viver, mas temos de deixar partir."
Autor Desconhecido
(como?)


Na Corda Bamba

Se olharmos com atençãopara a vida de qualquer pessoa, veremos que viver é andar na corda bamba e seráa forma como enfrentamos as dificuldades que nos define.

Maria Eugénia CoelhoBeltran Pepe Lopes nasceu a 27 de Outubro de 1932.
Os seus pais, EugénioBeltran Pepe e Manuela da Conceição Andrade Coelho, tinham tido antes doisfilhos, Manuel e Luísa. O primeiro morreu à nascença – imagino a parteira abaptizá-lo à pressa - a segunda, quando ainda não tinha dois anos, de meningitetuberculosa. Morreram antes do seu nascimento, e cresceu como filha única.Faltou-lhe nos momentos difíceis o apoio que poderia ter encontrado nos irmãos,mas teve um primo, cerca de um ano mais novo, com o mesmo nome, Eugénio, queera como um irmão. Ensinou-a a nadar bruços e ela aprendeu tão bem que aténadou no mar alto.
Começou a andar com aajuda da cadelinha Miss, agarrando-se a ela para os primeiros passos. Depoisdela morrer, sendo ainda criança, recordava-a com saudade “a minha Miss que Deustem” e quem a ouvia, sem ter conhecido a Miss, pensava que falava de umapessoa, uma ama ou preceptora (teve depois ainda pequena, o Jolie - já o Come-se-háem Meleças adoptou o seu pai - e em adulta, quando morámos em Gondomar, o Fiele o Wolf, e no Porto, o Tuiqui – não quis ter mais nenhum pelo desgosto em osperder).
Em criança a sua mãegostava de manter a casa – o 2º andar de um prédio na Duque d’Ávila impecável.Um dia levou um susto porque lhe vieram dizer que a filha de cinco ou seis quedeveria estar na marquise, estava a brincar no pátio. Depois de ter observadoum menino mais velho a fazê-lo, tinha arranjado forma de chegar lá, descendopelo exterior, talvez agarrando-se às saliências que encontrou na parede.
Quando era pequenina, amãe gostava de a mascarar no Carnaval. Ela gostou da fantasia de ratinho porser quente, já não tanto da do traje regional, de minhota ou saloia, por comelas ter frio.
O pai levava-a parapassear e trazia-lhe para provar comidas descritas em livros (do Emílio Salgarie outros) como água de coco. Ultrapassou doenças graves como a difteria, sem osremédios actuais. Para a ajudar na convalescença o seu pai arranjou a VivendaGeninha em Meleças.
Morava em Lisboa com osseus pais e entrou para o Colégio Alemão logo na infantil (sonhava em alemão).Nessa altura era loura e nos retratos aparece com tranças compridas. Os colegasbrincaram com o seu primeiro apelido, imitando um coelho. Para a reconciliarcom o seu nome, a mãe Manuela levou-o ao avô Joaquim Guilherme Andrade Coelhoque lhe contou sobre homens ilustres que tinham o mesmo apelido.
Quando no colégioaprendeu equitação. Eram crianças e gostavam de uma égua mansinha. Uma vez oprofessor destinou-lhe um cavalo temido que tinha vindo do exército. Talvez pornesse dia estar aborrecido com alguma coisa, o professor deu uma palmada nocavalo que partiu a galope. Ela conseguiu manter-se sobre o cavalo, sem cair.
Quando ia a casa doscolegas com ambos ou um dos progenitores de nacionalidade alemã, gostava decomo eram práticas – sem os naperons e bibelots das casas portuguesas, e debeber cacau quente.
Durante o período daSegunda Guerra Mundial irmãos dos seus colegas combateram e morreram na guerra -os pais de um deles, professores no Colégio, quando o filho mais velho morreu,não vestiram luto porque o filho tinha morrido pela pátria.
Em Lisboa seguiam-se asinstruções para pintar os vidros de azul e colocar protecções para que no casode um bombardeamento os vidros não se partissem e entrassem para o interior dascasas, ferindo os seus ocupantes.
Houve racionamento comsenhas. A minha avó tentou fazer pão, mas o resultado não foi muito feliz,saíram uns pãezinhos meio insonsos e apesar do meu avô ter dito que a culpa erado forno, não voltou a tentar.
Surgiram novos penteadosfemininos, “à refugiada”, cabelo preso, em rabo de cavalo ou numa banana, oucurto, penteado pela própria, sem ir ao Cabeleireiro.
Viam-se muitoestrangeiros, sobretudo artistas que tinham fugido e queriam ir para os EstadosUnidos.
No final da guerra oColégio Alemão fechou e a minha mãe passou a ter aulas com uma professoracontratada que a influenciou a escolher ciências. Via as colegas que seguiramlínguas com dificuldades no alemão que ela ultrapassava com facilidade. Acaboupor não ir para a Faculdade.
Cortou o cabelo queescurecera curto. Sabia vestir-se bem, parecia uma artista de cinema.
Sem precisar acompanhou adieta de uma amiga de leite e bananas que queria emagrecer para o casamento (econseguiu).
Conheceu o meu pai,médico veterinário, por ele ter arranjado um quarto perto. Queixou-se da vez emque no Eléctrico ele veio o caminho todo voltado para trás a olhar para ela.Passou a rondar o prédio onde ela morava, perguntando-lhe por gestos para ajanela se o aceitava. Passou pelo crivo dos futuros sogros.
Também o pai dele veio deTrás-os-Montes conhecê-la. Aparentemente gostou dela, mas queria que o filhocasasse com uma prima da mesma terra. Marcaram o casamento e pouco antes chegouum telegrama anunciando que o pai estava a morrer. O noivo largou tudo para ir tercom ele e descobrir que afinal estava bem. Isso sucedeu duas vezes. O Padreanunciou que com aquelas desmarcações já não os casava. A minha mãe tambémaborrecida com o sucedido foi para casa de uns primos no Algarve, onde o meupai foi procurá-la. Conseguiu convencê-la a dar-lhe mais uma oportunidade ecasaram pelo civil. A mãe da noiva que antes até simpatizava com o noivo nãoquis ir, mas o meu avô foi assistir.
O meu pai concorreu e foicolocado em Paços de Ferreira. Foram morar para lá os dois, numa altura em queali as mulheres não iam a cafés ou usavam calças em vez de saias, não haviatelevisão e estava longe da família e dos amigos. Terá sido aí que começou adesenvolver uma depressão.
Ao final de cinco anosconseguiram ter uma filha, um bebé lindo e especial, a minha irmã mais velha, Isabel,logo adorada como primeira neta dos dois lados da família. Seguiram-se maisduas filhas. Antes do nascimento da terceira, morreu o seu pai, e para ajudar amãe a recuperar pediu-lhe para a ajudar a tomar conta da neta mais nova (o queela fez assim como das outras até ter de nos deixar cerca de oito anos depois).
Esteve ao lado do marido,nos problemas do seu trabalho e de família, na doença e cirurgias, ajudou-o avoltar à vida.
Desde criança em que foioperada ao apêndice sendo a anestesia com éter (foi para a mesa de operaçõesnos braços do pai) passou por várias cirurgias, ao peito, ao útero, ao braçoque partiu numa queda, a úlcera no duodeno, sofreu da tiróide, da vesícula, deosteoporose, de divertículos, sempre com coragem para querer levantar-se no diaseguinte.
Dona-de-casa, cozinheira,costureira, enfermeira, explicadora, professora, cabeleireira, manicura,conselheira.
Melhor mãe do mundo,centro do universo, companheira nos bons e maus momentos, a proteger e a torcerpelas filhas.
Foi apanhada em casa, desurpresa, pela morte, em 5 de Outubro de 2017, antes do seu aniversário.
Foi com espírito deaventura, amor e coragem que enfrentou a corda bamba da vida.

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