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Um passo mais

Primeiro uma dor no pé direito, que a levou a tentar compensar com a perna contrária que lhe começou a doer na anca esquerda, a seguir também a anca direita. Cada passo lhe doía. Fez uma pequena pausa para olhar uma montra. Melhorou só um bocadinho e à medida que mais andava, a dor voltava, intensa, em cada passo. Antes costumava andar depressa, agora a dor não a deixava. Não se sentia cansada. Também por isso aquilo a aborrecia. Envelhecia, mas se não fosse aquela dor, imaginava que não o sentiria, não ainda. O reflexo que lhe transmitira a montra não era de uma velha e esforçava-se por caminhar direita, sem mostrar sofrimento. Não tinha era paciência. Irritava-se com os mais jovens meio alheados que paravam ou não lhe cediam passagem. No seu tempo era diferente. Não, ela é que era diferente. Seria ela a alheada do esforço de cada passo, sem noção que para a velha à sua frente um desvio doía.

A ilha dos corações partidos

Há muitos anos atrás, quando a natureza confiava no homem e facilmente lhe oferecia abrigo e comida, todos apenas se ocupavam na tarefa de ser felizes. Alguns seguiam os seus próprios prazeres, outros resolviam apaixonar-se e viver em função de um outro que podia ser o mesmo ou variar simultânea ou sucessivamente. Havia no entanto uns poucos que afirmavam ter o coração despedaçado. Numa languidez e melancolia pecaminosa ou numa intranquilidade nervosa aborreciam os demais que não os compreendiam. Não percebiam porque não seguiam o seu exemplo e ao invés criavam problemas que não existiam. Foi então resolvido que esses poucos deveriam ser exilados numa ilha que não ficava longe, mas cujo acesso difícil era somente possível em alguns dias do ano, quando o vento acalmava e a maré subia, permitindo que os pequenos barcos que lá tentavam ir, não se despedaçassem nos rochedos. Dito e feito, mal era observado o problema e depois de deixarem passar uns poucos dias para terem a certeza que estava em causa o mal condenado e não uma dor de barriga, eram remetidos para a ilha, sem apelo nem agravo. Esta até então desabitada passou a ser conhecida pela Ilha dos corações partidos. Enquanto as condições não o permitiam, eram os futuros exilados confinados num campo limitado para o seu mal não se propagar ou contagiar qualquer incauto. Ora, não obstante todos os cuidados, o número de afectados aumentava de dia para dia e alguns até pareciam ansiar pela condenação ao exílio. Entre os imunes estavam os mais velhos, mais avisados e experientes. Até que um dia repararam que entre eles já não cresciam crianças. Temeram então o pior e julgaram-se os últimos homens da terra porque os da ilha apenas poderiam ter morrido de inanição. Quando apenas restava um, meio enlouquecido pela solidão, resolveu ir até à Ilha para aí se encontrar com a sua morte. Esperou pelo vento e maré propícios e com dificuldade contornou os rochedos. Eis que quando se aproximava julgou ser vítima de uma alucinação porque ouvia risos. Quando finalmente chegou à praia foi rodeado por crianças, jovens, velhos, homens e mulheres, aparentemente nem infelizes ou felizes, contudo vivos.

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