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Natal



Natal


Klaustinha aproveitado a tarde para as suas últimas compras. Em cada final deDezembro decidia que no próximo Natal ia planear e arranjar tudo comantecedência, para no ano seguinte chegar de novo a dia 24 com quase tudo porfazer. Felizmente e como de costume ia jantar a casa da irmã e do cunhado, comos pais e o irmão deste, os sobrinhos, e às vezes mais algum amigo deles.Lembrou-se que seria melhor levar também prendas extra como chocolates paraprevenir estar lá algum amigo ou amiga deles. Tinha conseguido encontrar todosos presentes da sua lista – os brinquedos escolhidos pelos sobrinhos com aaprovação da mãe, uma caixa de ferramentas para o cunhado – no ano anteriorrevelara-lhe a intenção de começar a fazer alguns trabalhos em casa e apostavaque ainda não teria sequer começado. Ia gostar da caixa, mesmo que depois não autilizasse. Chocolates para a irmã e para os sogros dela, um cheque livro parao cunhado dela e mais chocolates embrulhados para outros possíveis convidados.
Ocentro comercial escolhido, o mais perto da sua casa, estava cheio. Tinha sidodifícil conseguir um lugar para estacionar. Só o encontrara depois de algumasvoltas e de ter seguido um casal carregado de prendas. Tinham correspondido àssuas expectativas guardando cuidadosamente os seus embrulhos no porta bagagens,seguindo depois e deixando-lhe o lugar livre. Lá dentro, pareciam todosempenhados em entrar para o Guiness como o maior número de pessoas num centrocomercial, enervados uns com os outros e com a falta de espaços livres, e acorrer apressadamente de um lado para o outro. Tentou conservar o espírito deNatal e ser educado em todas as lojas a que foi, não obstante a pressa e faltade paciência com que deparou. Os funcionários das lojas, na sua maioria, nãopareciam dotados de paciência ou talvez tivessem sido contagiados pelaimpaciência dos clientes apressados.
Jácom todos os seus embrulhos – a lista tinha-o ajudado, assim como o recurso àsprendas de chocolates – iniciou o caminho de volta para o carro. E foi entãoque sentiu que o observavam. Não sabia explicar essa sensação. Talvez tivessevisto alguém a olhar para si pelo canto do olho, meio inconsciente, até voltara notar esse alguém. Olhou em redor e viu a alguns metros um homem de idade aolhar para si. Não havia dúvidas, o homem estava mesmo a olhá-lo, fixamente.Pensou que bastaria dar-lhe a perceber que o tinha detectado para que mudassede alvo, mas isso não aconteceu. O homem continuou a olhar para ele e fez mais,começou a aproximar-se com pequenos passos. Era um homem de sessenta e tal oumais anos, de cabelo e barba grisalhos, baixinho e com barriga. Vinha na suadirecção, sem deixar de o olhar, com passos curtos. Depois de o ter encarado,Klaus decidiu que não daria mais para fingir que não o via e seguir em direcçãoao seu carro, por isso esperou por ele. Quando finalmente chegou ao pé de si, ohomem parou, olhou para ele e disse-lhe: “Klaus está na hora de trocarmos denovo”. O homem levantou a sua mãozinha gorducha onde no dedo indicador brilhavanum anel uma pedra vermelha e tudo pareceu parar naquele momento. À voltadeles, as pessoas continuavam apressadas, mas ele e o homenzinho pareciamfechados num círculo frio e imóvel. Sentiu-se como que sugado para dentro dohomem e de repente estava a olhar para si mesmo, mas sem ser com um espelho.Via-se, alto, quarentão e louro, está bem, já um bocadinho grisalho, osolteirão cuja própria irmã já tinha desistido de lhe arranjar uma esposa, quevivia bem sozinho, não fazia falta a ninguém e andava normalmente semprebastante satisfeito consigo próprio. Viu‑se a respirar de alivio, ouviu a suavoz a dizer: “por fim, posso ser eu de novo”. Olhou para as mãos, para aquelasque agora apareciam como as suas mãos, mais pequenas e papudas, e no  dedo indicador, a pedra vermelha de um anelparecia ter gasto o seu brilho. O seu eu, olhou-o de alto para baixo edisse-lhe: “Agora tenho dez anos para viver com este corpo e tu Klaus tens detratar do Natal”. Logo de seguida, o seu corpo virou-se e fugiu-lhe a correr. EKlaus lembrou-se de repente que tinha de arranjar prendas, muitas mais prendasporque era Natal.


Luzes de presença em jogo de sombras


Luzesde presença em jogo de sombras,
Nosilêncio meio quebrado pelos passos abafados de solas de borracha.
Osom das campainhas substituído nos corredores pelas luzes vermelhas sobre aporta dos quartos.
Nãose ouvem gritos.
Palavras,gemidos e medos estarão contidos nos quartos.
Duranteo dia, além da luz, a agitação dos enfermeiros e auxiliares e das visitas.
Trazemremédios e refeições, vêm mudar a cama.
Chegame partem as visitas.
Quandoentram, respiram a preocupação com quem visitam,
Aopartir, retomam o contratempo das rotinas perturbadas,
 E levam também o desejo de sair com eles, dosque ficam.

Atéque no dia da alta,
Apósa saída,
Aindaque mais frágil, em convalescença,
Reduzidosos problemas do dia-a-dia, com o susto do internamento,
Sechega finalmente a casa,
Aí,
Emcasa,
Reencontra-sea ordem do Universo
 E no olhar de quem se gosta, encontra-se oNatal.


Natal


Mariazinhanão estava nada à espera daquilo. A dor de cabeça, a confusão. Sentiu‑se maisassustada com a reacção dos filhos. Fizeram-lhe perguntas a que respondeu, maso que lhes disse não deveria ter sido a resposta certa porque ficaram aindamais alarmados. Ainda no dia anterior tinha saído com a filha e as netas, eagora não se lembrava do que tinham comprado. Seriam prendas para as meninas?Mas que prendas? E de repente, já só se lembrava do nome da mais velha, daPaulinha, e não conseguia recordar o nome da mais pequenina.
Chamaramo INEM, levaram-na para o hospital. Melhorou um bocadinho. Tiraram-lhe sangue,fizeram-lhe exames e mais perguntas. Depois o Sr. Dr. explicou-lhe que tinha deficar internada, só um dia ou dois, que tinha tido um AIT ou um AVC. Tinham-lhedado antes um comprimido que lhe deu muito sono e a fez concordar com que o lhediziam. Ficar ali, longe da sua casa e sem ter levado roupa, nem avisadoninguém.
Derepente, o seu mundo ficou confinado ao quarto, um retângulo com quatro camas, masapenas duas ocupadas, com ela, três. Felizmente o comprimido que lhe deu sono,ajudou-a a atravessar a noite, com os intervalos em que a vieram picar ou medir‑lhea tensão e ouviu ao longe gritos abafados. As suas colegas recuperavam de cirurgias.Uma vomitou durante a noite, efeito da anestesia. Esta era uma jovem alta eforte, muito despachada. Era a segunda vez que era operada a um abcesso. Naoutra, não tinha tido aquela recção à anestesia e estava pronta para ir embora.À outra companheira, mais da sua idade tinham-lhe tirado um peito. Esperavapara saber se iniciava um  tratamento ou sehavia metástases. Não gostou muito dosenfermeiros da noite. Poderia ser por estar meio a dormir, mas tinham-lheparecido muito sisudos. Talvez também estivessem com sono. Já a Srª Enfermeirado dia mostrou-me uma joia de rapariga. Brincava com elas, dizia-lhes queprecisava das camas livres, que tinham de comer tudo para irem embora, e que osoro era como uma feijoada.
A partir das dez começaram as visitas, vieram vê-laos filhos, à jovem veio vê-la a mãe, de tarde, e à senhora de mais idade omarido, também entradote. Preocupou-se com os filhos, que o Zé não estivesse aprejudicar o seu trabalho para estar ali com ela, e com quem tinha a Sofiadeixado as suas netas, quem ia buscá-las à escola, agora que não podia ir aavó. Fizeram-lhe mais exames. Um médico diferente disse-lhe que teria tido umAIT ligeiro, mas que por precaução iam adiar a alta para o dia seguinte.
Foram-se embora as visitas. Voltou o silêncio pesado, assinalado pelos ruídosdos aparelhos no quarto. Custou-lhe mais esta segunda noite. Mais habituadaao espaço ou menos sedada, sentiu os gritos próximos. No dia seguinte, aindapela manhã deram-lhe alta. Veio a Sofia com o marido buscá-la e ela a sentir-semeio trôpega, de certeza, só por causa dos quase dois dias na cama. Levaram-nade cadeira de rodas até à saída, depois agarrou-se ao braço da filha e o genrotrouxe o carro para perto. 
Foram para casa.
Quando chegaram lembrou-se dasprendas, do nome da Ritinha, que tinha de ajudar na cozinha, fazer o seu arrozdoce e que era Natal.

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