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É mentira!

É mentira!


Ana nunca diria uma mentira. Simplesmente não fazia parte do seu carácter. Podia às vezes ficar calada, mas mesmo assim fá-lo-ia para não ofender. “Está boa a sopa?” perguntava-lhe a tia em experiências culinárias quando lhe tinha pesado a mão no sal. Este vestido é que me faz gorda, afirmava a amiga que se perdia nos bolos. Ana não dizia nada ou mudava de assunto. Nisso tornara-se perita. Esta sopa tem algo de diferente, o que é? Perguntava à tia. “Arranjei uma receita nova para um bolo de chocolate” partilhava com a amiga. Se nada resultasse e fosse muito empurrada contra a parede, aí tinha de dizer a verdade. A sopa está intragável de salgada e não é o vestido, és tu, estás gorda. Esta forma de ser tinha-a isolado. Quando se trata de verdades desagradáveis que as afectem, e mesmo que não o reconheçam, as pessoas não costumam gostar de quem as diz, sobretudo se não foram disfarçadas com alguns rebuçados: “sabe que é boa cozinheira mas esta sopa está um bocadinho salgada” ou “gosto muito de ti, mas estás um pouquinho gorda”. Mas nem disto ela era capaz. Não achava que a tia fosse boa cozinheira, a sopa não estava um bocadinho mas horrivelmente salgada, e não gostava muito da amiga, nem esta estava só um pouquinho mas visivelmente mais gorda. 
Assim, não era de todo popular, antes pelo contrário, e porque ela quereria que se escrevesse aqui a verdade, tornou-se foi bastante solitária. 
Também para arranjar emprego foi complicado. Não o conseguiu em lojas em que contactasse com os clientes, nem em fábricas nas quais tivesse de elogiar o encarregado. Só conseguiu arranjar serviço em limpezas e mesmo aí, em casas de doutores que passavam o dia fora. Abriam-lhe a porta antes de saírem para os seus empregos, deixavam-lhe o pagamento no sítio combinado. Quando terminava, saía e fechava a porta. Apenas havia tempo para lhe darem algumas instruções e corria tudo na ordem. 
Não conseguiu ter um namorado. Talvez fosse por não se ter verdadeiramente apaixonado nunca. Era bonita, clara e alourada, alta para a média e para o magro. Recebeu muitos convites. Aceitou alguns. Se lhe vinham com mentiras, dizia-lhes logo para pararem com aquilo. Não queria que lhe viessem dizer como “desde o primeiro momento fiquei logo caído por ti” quando sabia que primeiro ele tinha convidado a Suzete que era muito extrovertida, ou “és a mulher mais bonita que já vi” e então, nem que fosse só por isso, ele não via televisão, não ia ao cinema? E não era capaz de lhes dizer nada parecido. Quando lhes cortava as tiradas, alguns decidiam ser mais directos, confundiam a sua franqueza com experiência de vida, imaginavam que pudesse querer o mesmo que eles, avançarem na relação para a intimidade física. Mas ela não era capaz, não tinha experiência, só alguma curiosidade, e já chegara à conclusão que aquele não era o tal, se é o que tal existia. Em resultado, tinha tido muitos primeiros encontros, mas raramente segundos e nunca terceiros. E os anos iam passando. Ana continuava só e orgulhosamente verdadeira.

Até que um belo dia, aliás, não tão belo assim, porque choveu muito, conheceu o Paulo. 
Foi por intermédio de uma sua cliente, grande amiga duma tia ou tia-avó dele. Arranjaram-lhe o serviço. Combinaram que iria lá todas as terças-feiras de manhã, o horário que ela tinha livre, fazer a limpeza. Até aí, tudo muito parecido com o que se passava com outros serviços, embora ele vivesse sozinho, e tivesse sido a tia que tratou de tudo. O Paulo era professor, só que naquele ano, não tinha aulas nas terças de manhã. Abria‑lhe a porta quando ela chegava e não ia embora. Ficava por ali. Perdido na preparação das aulas, na correcção de testes ou a estudar matemática porque estava a tirar o doutoramento. Correspondia à imagem que ela tinha de um génio. Absorvido em grandes questões, desligado das decisões do dia-a-dia. Fechava-se no quarto, quando ela aspirava a sala, voltava para a sala quando ela ia lavar a cozinha. Reparou que ele almoçava apenas uma sandes. Passou a trazer pão fresco, legume e a fazer-lhe sopa. A certa altura ele começou a falar-lhe das aulas e dos alunos. Só descrições, às vezes engraçadas, outras dramáticas. Começou a almoçar com ele, porque o Paulo insistiu. Sem se aperceber, terça-feira passou a ser para si, o melhor dia da semana, e sem ela o saber, para ele também. E um dia, o Paulo beijou-a. Não lhe disse que estava caído por ela desde que a vira ou que era a mulher mais bonita do mundo. Simplesmente beijou-a, entre enunciações de questões matemáticas e descrições de aulas, beijou-a, e ela gostou. Foram-se aproximando mais e de uma forma física. Passaram a ter a intimidade física que a deixava antes só curiosa e pela primeira vez ansiosa. Na sua primeira vez não sangrou. Não lhe disse que era a sua primeira vez, não soube se ele se apercebera. Passou a vir ter com ele à noite. Fazia o jantar. Dormiam na cama do quarto que ela arrumava. Trouxe roupa e objectos seus. Ele deu-lhe um duplicado da chave. Contudo, não falavam do que sentiam, do que se passava entre eles, do que queriam para o futuro. Ana pensava ou pensou depois porque ao olhar para trás, o tempo naquela época parece ter voado, e não se reconheceu a si própria nas atitudes que então teve, que estava bem porque ele não lhe mentia. Mas será que não? Ao aproximar-se o Natal, o Paulo comentou que iria viajar para o passar em casa dos pais na aldeia. Ana não disse nada. Foram só três dias. O Paulo foi embora no dia 24 e regressou no dia 26, mas foram os três dias mais solitários da vida da Ana, mesmo tendo passado o Natal como habitualmente com a sua família. Nessa altura pensou no que estava a fazer, no que existiria entre eles, se teriam ou não futuro os dois juntos, e pela primeira vez pensou que uma mentira poderia tê-la confortado. Se ele lhe tivesse dito, antes de partir que a amava, ela ia querer acreditar. Essa ideia durou só alguns segundos, porque logo de seguida lembrou a si mesma que ela nunca mentia, nem iria mentir a si mesma. No dia 26, que por coincidência era terça-feira, estava na casa dele, quando o Paulo chegou. Completamente ignorante da dolorosa imensidão que tinham sido para ela aqueles dias, abraçou-a, como se não vissem apenas há poucas horas, enquanto comentava que estava com fome e lhe perguntava se havia sopa. E havia. Os dias foram continuando como se nada se tivesse passado. Todavia, a Ana estava diferente. Pensou que aqueles três dias a tinham mudado. Não se reconhecia. De manhã podia sentir-se feliz, mas chegava à noite a sentir-se desgastada com a vida. Via-se mais pesada. Tão depressa estar com o Paulo a atraia como a repelia, e o esforçar-se por disfarçar tudo isso, fazia-a pensar que estava próxima de mentir. Ficou tão absorvida no seu convulsionado e estranho sentir que foi o Paulo o primeiro a perceber o que se passava. Ana estava grávida. Ele perguntou-lhe há quanto tempo não tinha o período. Meio chocada por ele lhe fazer essa pergunta apercebeu-se então que há dois meses que o não tinha. Mas o mais surpreendente veio depois. O Paulo ficou feliz. Levou-a à primeira consulta da confirmação. Disse-lhe que tinham de celebrar e casar. Casar. Ana tinha e não tinha pensado nisso. Queria tê-lo no seu futuro. Pareceu-lhe que estava certo e casaram. No civil, somente com alguns familiares, os pais dos dois, que até se pareciam, a tia-avó um pouco chocada, essa parecia mesmo ter sonhado para o sobrinho um casamento “melhor” com uma doutora, sem dúvida, mas ninguém lhe perguntou nada. 
O tempo foi passando. Deixou de trabalhar em outras casas, passou a cuidar apenas da casa que agora também era sua. Falavam do que faziam. O Paulo queixava-se de alguns dos seus alunos, descrevia-lhe problemas matemáticos que ela não compreendia. A Ana guardava todos os episódios que lhe pareciam interessantes para lhe contar no final do dia. As tiradas com piada dos vendedores da praça, reclamações de clientes, o rapazinho que tinha roubado uma abóbora. O dono foi atrás dele, apanhou-o e deixou-o ir. Parecia um homem duro, mas teve compaixão, disfarçou, dizendo que ele lhe fugira. A sua barriga ia crescendo. Sentia os movimentos. Já sabia que ia ser uma menina. Numa terça-feira, depois do jantar, sentiu-se enfartada. Foi-se deitar, mas a indisposição não passava e aí começou a ter as contracções. Chamou o Paulo quando se sentiu molhada. Foram para o Hospital e a dor aumentava, vinha como vagas, crescia quase a parecer-lhe insuportável, concedia-lhe alguns momentos de alívio e logo regressava. A bebe era pequenina e quando pensavam dar-lhe a anestesia, começou a sair. A dor cresceu de novo, até chegar o maior alivio e ouviu o seu choro, mais uns gemidos baixinhos. Levaram-na para a limpar e ela adormeceu de exaustão. Horas depois foi o Paulo que lhe trouxe a bebé. Colocou-a com todo o cuidado no seu colo. Era vermelhusca e careca. O Paulo olhou para ela e disse “é a menina mais bela do mundo”. E então, a Ana, que nunca tinha dito uma mentira, respondeu-lhe, “é, sim”.

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